terça-feira, 19 de março de 2013

Oriente – A Embriaguez Concedida



Enquanto Dioniso era varrido pelas tochas incendiárias dos cristãos recém convertidos no fim do período antigo e seu culto era velado pela iniciante Igreja Católica, em seu nascedouro repressor, no Oriente, a poética se permitia ser lasciva e profana e ao mesmo tempo sagrada.  O interdito possuía significado similar ao crente chinês ou hindu, mas apesar da conceituação filosófica diferir em alguns pontos, na existência do individuo não havia cisão entre o que a arte sagrada e a arte profana significava, pois essa divisão é característica exclusiva da cultura do Ocidente. O Oriental vive sua fé em tempo integral.

Quando pela primeira vez tive oportunidade de conhecer  o Coliseu em Roma percebi uma inscrição que dizia ao espectador cristão que ao beijar a cruz que figurava na laje ao sair os pecados decorrentes de presenciar o horrendo espetáculo com prazer seriam absolvidos pelo ato de contrição. Temos então a imagem de um individuo dividido entre a fé cristã e sua cultura ancestral que apreciava os morticínios da arena com igual desenvoltura. Pela manhã assistiam a missa e depois corriam até o espetáculo para ver gladiadores e feras esvaídos em brutal carnificina. O Império já agonizante vivia seus tempos de decadência e divisão que iriam lançar as bases para o obscurantismo do fundamentalismo religioso e a desagregação final de seu território.

Essa herança da divisão entre sagrado e profano permeia a poética e estabelece fronteiras bem definidas na criação músical, na poesia, nos audiovisuais e possivelmente no conceito em relação a própria poética, como registro parcial de uma só manifestação criativa pseudo erudita. A sobriedade passa a ser atributo dessa poética, como forma criativa, negando toda uma tradição não erudita que sobrevive nas periferias, que possui vida própria, presente nos cantos inebriados dos bardos mal pagos que não possuem permissão oficial nem frequentam a mídia. Como exemplo recente podemos destacar o Jazz, o Rock and Roll, o Blues nos Estados Unidos, todos fenômenos criativos profanos nascidos nos bares e tavernas de ex escravos que tiveram por anos interdito seu acesso  aos grandes salões e forjaram esses sons que foram decantados nos coros das Igrejas Protestantes relegadas aos negros pelos brancos que proibiram os cultos nativos de seus servos, restringiram seus espaços, antes e depois da formalização do status de libertos em uma sociedade violentamente segregada.

Mas o transe dionisíaco não pode ser contido por leis e normas. Ele faz parte do pathos religioso da humanidade. Sua poética não sucumbe aos mandamentos humanos, ela se traveste, foge dos templos, se esconde em guetos, busca os homens de todas as épocas e crenças e portanto sua liberdade de ação criativa define o nível de salubridade de uma determinada civilização ou sociedade.

No Oriente Próximo, com a expansão do islamismo em plena Idade Média, dentro da sua fronteira é onde vamos flagrar a explosão do processo criativo literário. A poética irá expandir-se através dos cantos cheios de menções ao Profeta e seu livro sagrado, das criações literárias com temas de religiosidade apurada e volúpia sexual desconhecida para os padrões da sociedade feudal analfabeta europeia da época. Padrões estéticos cujas obras traduzidas ainda iriam causar escândalo na sociedade vitoriana do séc. XIX muitos séculos depois do apogeu da expansão islâmica.

“As Mil e Uma Noites”, obra de autor desconhecido e “Rubaiyat” de Omar Khayam traduzem esse enlevamento profano misturado com as coisas da religião e das crenças do povo comum que dão sabor especial aos cantos desses versos universais.  Até hoje os estudiosos debatem e divergem com a análise da obra do persa Omar Khayam . Alguns o consideram um cínico epicurista amante das mulheres e do vinho, seus poemas como hinos às alegrias da vida, outros interpretam alegoricamente os “Rubayats” observando por trás de suas quadras uma exaltação da divindade, uma obra mística de cunho esotérico.

Imerso nas coisas do sufismo, de “sufi” que significa sabedoria, contemporâneo do Velho da Montanha, o homem que criou a seita dos Assassinos que buscava reimplantar o culto à Hussein e libertar os xiitas do jugo Seldjúcida Sunita, e portanto vivendo uma época conturbada, Khayam com certeza era admirador do neoplatonismo que embebeu toda a sua poética, como perpétua exaltação religiosa,  constatação e aceitação da irremediável fragilidade humana, submissão extremamente dócil à Vontade do Divino Criador.

O panteísmo sufista que vai encontrar semelhanças inegáveis ao taoísmo chinês e ao hinduísmo, ainda mais antigo, que nasceu às margens do Bramaputra e do Ganges e irradiou sua sabedoria para todo mundo civilizado representa natural influência filosófica para os persas que habitam o meio caminho  da rota da seda nas portas da Ásia. Até mesmo no sagrado Alcorão podem ser encontradas referências ao Uno como única manifestação real do Cosmo e sua Criação simples emanação da sua Existência Divina. Portanto, além dessa crença panteística, tinham os sufis a certeza de que toda a existência, todo o pensamento e toda a ação eram de caráter essencialmente divinos. Desaparecem com isso as noções antitéticas de bem e mal, de vício e virtude, uma vez que tanto uns como outros são revelações da Vontade Divina.

Como centro basilar dessa doutrina, de grande conteúdo poético, o amor é a base da Criação do Universo, sentimento aglutinador de Deus. Pelo amor explicam a origem das “Dez Mil Coisas”. Antes da Criação, Deus amava-se em absoluta unidade e pelo amor revelava-se a si próprio. Chegando ao limite desse amor sem dualidade, tirou do nada uma imagem de si próprio, dotando-a dos seus atributos.
   
As religiões oficiais de origem semítica não aceitaram esses ousados pensamentos filosóficos, pois pretendiam regrar o comportamento de seus prosélitos através de rituais exotéricos e mistérios, incentivar a abstinência e ao temor à Deus, sendo assim a liberdade sexual e o prazer não fazem parte dos dogmas aceitos pelos seus sacerdotes que preferem pregar  contra o pecado da carne em absoluta negação da vida. Mas na época das Cruzadas muitos cavaleiros escutaram as preleções dos sufis e levaram escondidos em seus alforjes suas heresias para a Europa que depois deram origem às sociedades secretas de Maçons e Rosacruzes que seriam perseguidas pela Igreja oficial lá.

A doutrina sufi ensina a atingir, pelo desprezo das coisas terrenas, e pela meditação constante das coisas celestes em contato direto com a Divindade através das exegeses de corpo e alma, como fazem os hindus. Para chegar a esse grau de perfeição os sufis devem passar por quatro níveis de entendimento:  Ao primeiro chamam “Direção do Corpo” que predica ao discípulo à submissão das leis estabelecidas e aos preceitos exteriores da religião devendo levar uma conduta exemplar. O segundo nível denominam “Caminho” indica que o neófito já pode dispensar as formas exteriores do culto dominante por já ter adquirido o conhecimento da Natureza Divina. O terceiro, denominado “Ciência”, o sufi é então considerado inspirado. O quarto grau, a “Verdade”, indica que o mestre sufi atingiu sua conexão plena com Deus.

Omar Kayham, como perfeito sufi, responsabiliza o Criador pelas perfeições como também pelos desvios de suas criaturas, tema presente em sua poética. Ele desacredita das liturgias, pois Deus está dentro de nós e em toda a parte, tradição ancestral esotérica que permeia as religiões orientais e a cabala. O verdadeiro templo é o individuo que interioriza a divindade e vive um êxtase de exaltação mística em comunhão com a divindade.

Assim seguindo a tradição Oriental  seu ideal religioso se imiscui com o profano. A embriaguez do vinho se assemelha aos rituais de Dioniso, como para tantos outros autores, fonte de inspiração divina, coisa sagrada, anulação da identidade, o aniquilamento da personalidade do falso “eu” para a contemplação do “Eu Superior” ou divino.  Para atingir esse estágio  chega-se ao “Sukr” ou embriaguez, segundo a tradução literal.

Desde tempos imemoriais os homens recorrem às substancias alucinógenas para ampliar a percepção e atingir a exaltação mística. Todos os povos do planeta possuem suas ervas sagradas para facilitar o contato com a divindade. O Rig Veda, texto poético hindu, é consagrado ao culto do soma, a bebida sagrada cuja fórmula se perdeu, mas que alguns estudiosos atualmente acreditam tratar-se de cogumelos (Amanita Muscaria) e a Pítia de Delfos entrava em transe embriagada pelos gases vulcânicos que emanavam de uma rachadura que atravessava o templo e profetizava em uma algaravia que só os sacerdotes entendiam e decifravam.  Muitos outros exemplos similares podem ser invocados. Não chamam os germanos e saxões “spirituosen” aos licores e vinhos que levam ao inebriamento em alusão as coisas do espírito?

A embriaguez, a música e a dança que levam ao transe é a raiz da poética enquanto inspiração dos deuses, ponto de ligação para o crescimento espiritual do iniciado, mas também é uma faca de dois gumes para o seguidor, pois a mente despreparada pode se perder nos seus meandros labirínticos e a mente doente pode escapar para uma viagem sem volta em direção ao delírio ininteligível se desprovido da devida preparação espiritual. Na atualidade a sociedade de consumo torna o individuo dissociado de sua espiritualidade e o homem comum acredita que só o seu lado externo é a projeção da realidade na ilusão das parcialidades induzindo-o para um caminho de prazer sensorial descontrolado, um beco sem saída espiritual e por isso se perde a evolução psíquica tornando o perigo da escravidão do vício das drogas um drama sempre real. Essa é uma das consequências mais graves da separação entre o sagrado e o profano na sociedade Ocidental. A perda inestimável do sentido de ritual.

Para se alcançar o êxtase, no sentido de samadhi, iluminação, basta uma palavra, um koan enigmático, uma meditação com a técnica correta que só pode ser alcançada com o devido conhecimento e perseverança. O verso certo quando possui a correta sonoridade pode trazer o percebimento instantâneo para o seguidor que pretende empreender  o Caminho.  Os versos mesmo tendo sentido erótico podem estarem associados a uma intenção mística velada, já que a natureza humana é uma projeção da natureza divina e o prazer é dádiva da divindade.

A poesia sufi é a forma mais elevada da poética persa. Poesia de intenção mística com profunda temática sensual que exalta o vinho, a beleza, e a luz como dádivas divinas. Khayam com certeza é um dos maiores representantes dessa tendência onde o Islã é reconduzido ao seu trilho de doutrina esclarecida onde a ciência e a sabedoria teve seu momento de expansão reconhecido até mesmo pelos seus piores inimigos.
Diferente dos versos histéricos das freiras confinadas em conventos medievais, os poemas iluminados do Oriente possuem uma sensualidade própria, liberta das patologias da mente enclausurada e contida pelos interditos da carne.

Noite, silêncio, folhas imóveis;
imóvel o meu pensamento.
Onde estás, tu que me ofereceste a taça?
Hoje caiu a primeira pétala.

Eu sei, uma rosa não murcha
perto de quem tu agora sacias a sede;
mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar,
e que te fez desfalecer.

Acorda... e olha como o sol em seu regresso
vai apagando as estrelas do campo da noite;
do mesmo modo ele vai desvanecer
as grandes luzes da soberba torre do Sultão.

Omar Khayyam

A mulher e a Alma



Segundo Claude Levy Strauss a mulher e a comida são temas conexos nas culturas de caçadores coletores. Em yoruba o mesmo termo  designa o matrimonio, a comida, a posse, o mérito, o ganho, a aquisição. Casar-se e comer possui o mesmo sentido. No principio as uniões incestuosas eram comuns e foi necessário se estabelecer os diferentes clãs para criar novas oportunidades de cruzamentos. A descendência era matrilinear, como ainda ocorre em algumas culturas de origem tribal. Em surdina o poder da mulher se firma desde o inicio dos tempos em todas as culturas, enquanto prenha, garante a continuidade da estirpe, ama de leite dos primeiros passos do homem, coletora de alimentos e divina deusa da fertilidade, enquanto madona, mulher respeitável, que não teme os poderosos e afirma como formadora sua opinião nas assembleias da tribo decidindo conflitos e tréguas. Antes do início das hostilidades elas podiam envergonhar os covardes, insultar os indecisos e participar das danças de incitamento ao combate.
      
Em oposição à figura volúvel de Helena que se entrega a Páris e abandona seu marido gerando o infortúnio para Tróia, parte da temática da Ilíada, na Odisséia, a outra importante obra atribuída à Homero, a personagem feminina Penélope, a esposa constante e fiel de Odisseu espera seu retorno da guerra enquanto os jovens pretendentes dilapidam a fortuna da família em banquetes e pressionam a esposa do seu rei, que acreditam morto, para que escolha um novo marido, ao que ela secretamente se recusa a fazer e por anos utilizando de mil artimanhas para ganhar tempo até o retorno do amado marido.

As expressões do feminino estão presentes nos conceitos mais caros dos antigos. As musas, a Vitória, a Justiça, a Coragem, a Força e a Sabedoria e muitos outros arquétipos são representações femininas. Na poética dos antigos, representada em suas obras magistrais, como a figura de Antígona de Sofócles, a filha que se rebela contra as sentenças do estado  e sepulta seu irmão Polinice, caído em desgraça e condenado a insepulto, pelo tirano Creonte que o considerava traidor da pátria. É condenada à morte por Creonte por questões de estado. Ela personifica a questão primordial, sua voz ainda ecoa da ribalta vinda do passado dos tempos, numa sociedade onde a mulher normalmente não tinha voz, é o contrassenso que grita e afirma a força eterna do feminino, garantia da imortalidade da obra.

No principio eram as deusas a razão do culto neolítico, as representações de matronas com seus quadris largos e seios volumosos em pequenas estatuas que se difundiram  por toda a eurásia desde 50.000 anos atrás. Em Çatal Huyuk, na Turquia, uma antiga cidadela construída a cerca de 10.000 anos a estatueta de uma  mulher sentada num trono e ladeada por duas panteras, em cujas cabeças ela coloca as mãos, sugere ao mesmo tempo a imagem da mãe geradora e da senhora da natureza. Ela é também a guerreira, a inspiradora das artes, da civilização, a criadora do céu, do tecido e da cerâmica, entre muitos outros significados e atributos.  Os gregos explicaram também a origem do mundo com outro mito feminino: o da deusa Gaia. Doadora da sabedoria aos homens, ela limitou o Caos infinito e gerou seu duplo etéreo: Urano, o céu estrelado.  

É Deméter, a deusa venerada pelos gregos como doadora das sementes, da colheita, que ensinou os homens  a cultivar a terra, a atrelar os animais e a se organizar na lavoura: arar, semear, colher e transformar os grãos em farinha e depois em pão.  Da mesma forma que foi introduzido o culto à Dioniso pelos invasores, o ritual eleusino, dedicado a deusa, foi originalmente realizado na Trácia e se instalou no sul, em Eleusis, nas cercanias de Atenas por volta do primeiro milênio antes de Cristo.  Foi nessa época, se acredita, composto o Hino Homérico à Demeter, que narra o interessante mito da deusa e sua busca pela filha Perséfone sequestrada pelo deus do mundo dos mortos  Hades.

Assim também a Virgem  Maria, a compassiva mãe, psicopompa, que pede o perdão pelas almas dos homens quando esses partem para os labirintos profundos do mundo dos mortos.  A musa diáfana e impoluta que leva Dante pelas sendas do Paraíso diante da Luz Eterna de Deus. O espírito feminino que pode ser uma imagem fantasmagórica da mulher idealizada, além do pecado e que permeia todos os enredos das obras consideradas clássicas. Ela é a  alma sempre viva no imaginário da humanidade. Sem mácula.

Em oposição a virgem sem mácula temos a visão do lado sombrio do feminino  sempre presente nos temas da poética antiga universal  As personagens sinistras, guerreiras, insufladoras da discórdia entre os homens. Lilith, o demônio semítico que mata os nascituros. Hécate, a feiticeira com seus archotes esperando nas encruzilhadas os viajantes incautos transgressores de interditos, as antigas deusas orientais que fertilizam as terras do plantio mas exigem em troca sacrifícios humanos para garantir a abundância da safra, Diana, a caçadora guerreira, deusa lunar que pelo horror ao parto se nega ao matrimonio e se abriga nas florestas junto com as ninfas numa relação homoafetiva velada. O caçador que espreita a deusa desnuda é transformado imediatamente em cervo e devorado pelos próprios cães.

Hoje a imagem dessa mulher que rompe barreiras, figura independente que faz o próprio destino desvela o antigo significado desses mitemas que foram corrompidos pelas culturas machistas dos indo-arianos que dominaram toda a Eurásia. O sentido da rebeldia feminina expõe à luz o sentimento dessas antigas mulheres primordiais que de uma forma ou de outra foram deificadas nas fábulas da poética antiga como reminiscências de um passado matriarcal que os invasores das estepes não podiam permitir nem aceitar, mas que continuava presente no imaginário humano. A decadência da dominação machista, hoje em franca retirada para os confins do mundo asiático, permite uma abertura, uma nova visão desses arquétipos e portanto uma poética nova para formar os cânones da palavra com atribuição revigorada em relação ao papel do feminino na obra. De mero coadjuvante no enredo da poética, ou simples musa relegada a adoração do seu Fausto ela emerge como autora e personagem principal do enredo que condiciona o desenrolar das ações e do drama.       

Poética da Carne





‎"A arte poética pertence ao ser bem-dotado pela natureza (euphyoûs) ou ao louco (manikoû); porque os primeiros se modelam facilmente (euplastoi); os outros saem de si mesmos (ekstatikoi)."

A Poética é a música da alma. Podemos captar o verso arcano, sentir os eflúvios do passado distante, escutar as vozes de caçadores em volta da fogueira ao cair da noite recitando suas palavras, cânticos, sons guturais cheios de ritmos, em que imitam a fala das formas da natureza, recitam as aves, o vento, o murmúrio dos riachos, os barulhos ameaçadores dos predadores, os movimentos das manadas que perseguem em busca de alimento. São gestos amplos, movimentos de dançarinos que remontam as aventuras do dia para os convivas que aproveitam em silencio respeitoso a mimica do bardo contador de histórias. O bardo desfila suas palavras que se parecem com os sons cotidianos da lida, mira o vazio como se observasse à presa, conta chistes do dia que tiram gargalhadas espontâneas do grupo, inventa expressões que vão se incorporar na cultura do cotidiano, lembra os espíritos que habitam alhures e são proteção e advertência aos jovens ainda infantes.  Todos observam solenes as palavras sábias e belas que nascem desse mágico, indispensáveis para os momentos de alegria, consolo constante nos tempos de fome e guerras.
     
Assim fazem os Aranda, povo autóctone da Austrália. Suas canções que remontam o início dos tempos  servem para alimentar o fervor dos guerreiros que planejam o massacre dos oponentes.  Logo o chefe que vai fazer a guerra ordena que os guerreiros se pintem com seus ornamentos, e estes decoram seu peito e abdômen com raias negras e brancas bordeadas. Os guerreiros aliados que chegam mostram uma decoração corporal similar. Os guerreiros dos diferentes grupos se saúdam entre si gritando: "Wa wa wa bau". Então o chefe que fez a convocação dos aliados diz: "Esta noite dormiremos aqui, amanhã sairemos para vencer os inimigos". Durante toda a noite os guerreiros se inflamam de ardor bélico cantando suas canções de guerra. Strehlow traduziu um desses cantos: 

“De onde são esses que vieram de tão longe
Se pintaram de ébano
Golpeia seu pênis com o osso afiado
coloca o osso na borda do pênis
O sangue flui como uma torrente do grande pênis

e encharca os ombros de quem está sentado adiante
Na minha própria zarabatana
coloco o dardo, coloco o dardo 
A zarabatana dispara o dardo, dispara o dardo;
o dardo alcança o inimigo, alcança o inimigo
O dardo com seu gancho
rasga aos inimigos
O dardo se crava, se crava
produzindo um mortal estalo
lhe fere de morte, lhe fere de morte
e não pode tirar o dardo da ferida
O ferido é derrubado como um jackarro (ave pernalta) 
desmorona igual ao céu 
Lhes tiraremos as entranhas e comeremos sua manteiga
depois de tirarmos sua pele
rasgaremos suas tripas” 


Os cantos são referentes ao ritual que praticavam os guerreiros na noite anterior ao ataque: com um osso afiado se rompia a ferida da circuncisão que na Austrália Central é realizada na uretra no sentido longitudinal (subincisão) no rito de passagem para a idade adulta e deixam os homens fluir o sangue mutuamente sobre o ombro direito com o objetivo de fortalecer o braço correspondente. Por outro lado esse ritual preparatório de doutrinamento serve para familiarizar o guerreiro com o ato da morte. E como não podia deixar de ser a canção possui referencias explicitas ao canibalismo.

Rita no sentido sânscrito, de mais sagrado, raiz semântica de ritual, que também conota o sentido de ritmo, o efeito mágico produzido nos crentes pelos cânticos e hinos, a cadencia que afeta o objeto, mas na realidade provoca um encantamento no sujeito, isto é, uma intensificação do sentimento vital, um aumento da intensidade, uma libertação, um restabelecimento do potencial  psíquico que canaliza a força extraordinária da libido para a comunidade realizar seus feitos de glória sem culpa.

Transita a humanidade por esses caminhos, sem exceção, nos quatro quadrantes onde habita, seus bardos cantam os mesmos temas recorrentes, os feitos de glória e sangue, o rapto das mulheres, a luta ancestral dos clãs, a vendeta eterna que glorifica seus heróis que padeceram a morte e o devoramento nas mãos dos inimigos e que devem ser vingados e o culto aos espíritos, as proto-divindades, esses fundadores semidivinos, patriarcas que permanecem na memória do bando e devem ser lembrados continuamente para não padecerem a morte definitiva do esquecimento no érebro.

Durante centenas de anos os versos foram sendo forjados, mantidos os mitemas e arquétipos de encorajamento da alma do homem como manifestação distinta, particular de sua própria humanidade perante a Criação. Característica impar daquele que mimetiza seu universo à própria imagem e através da harmonia dos versos ordena a Natureza externa e a particular em mágica sintonia.

A evocação do divino é a evolução natural da poética que se sabe inspirada pelos deuses e participa do sagrado como coreografia da participação mística do individuo em seu caminho pela vida.  O guardião da palavra possui posição privilegiada na tribo. Na casa dos homens ele recita as antigas histórias que são interditas para as crianças e mulheres.  Como xamã interpreta a lenda primordial da origem, o mistério que só pode ser revelado após uma dolorosa iniciação. Cada ritual detém um cântico, sua poética é revelação divina que o xamã conserva e pretende inalterada como tradição oral.

Com a formação das cidades estado a poética se formaliza na inscrição nos muros  dos templos e no invento da escrita que dá forma aos versos sagrados e profanos. No Egito e no Crescente Fértil a escrita hieroglífica e cuneiforme registrada em placas de argila pelos escribas, que iria evoluir posteriormente para a escrita fonética,  e na China os ideogramas desenhados nas pranchas de bambu servem de contenção, espaço limite para a criação poética em oposição a transmissão oral, mais dinâmica e flexível, transformação que estabelece a erudição dos textos, e privilegia os detentores do conhecimento da nova ferramenta.  Os  eruditos  estabelecem regras para a versificação e pretendem deter o conhecimento e estabelecer o valor estético através da forma.

Na Grécia Antiga após o "Período das Trevas" que antecedeu o período Clássico, surgiu o mito de Homero, o bardo cego, pai da obra que estabeleceu a origem dos povos da península que na forma jônica deu vida aos seus Atridas e reis míticos insulares, personagens heroicos de uma era perdida. Depois de centenas de anos de transmissão oral seus versos são registrados pelos helenos e passam a personificar o mito de formação da hélade. A métrica empregada é o hexâmetro, verso tradicional na épica grega.  É o apogeu da manifestação poética de origem lendária atribuída ao poeta arcano, andarilho que ensinava em versos o passado mítico dos micenos e por milenios esses povos consideraram suas estrofes expressões literais do seu passado histórico de forma indiferenciada. Nesse contexto passou a representar a temática oficial que apesar dos filósofos peripatéticos e cinicos era texto obrigatório entre os doutos eruditos e nas classes de então.

Sua obra compreende a  temática recorrente dos povos indo arianos, o rapto de mulheres, a vingança, os combates singulares, os heróis semidivinos e a vontade leviana dos deuses que motivam as ações humanas e castigam a soberba dos incautos soberanos que transgridem interditos, a Ilíada é um tema universal entre os Antigos e como obra prima da criação poética que chegou até nós  seu pathos ainda reverbera no coração dos homens no mundo todo.

Príamo, o personagem que personifica o rei da infaustosa Ilium e que perdeu sua fortuna pela imprudência dos filhos Páris e Heitor, o pai que por nobreza e amor paternal é capaz de se humilhar para o assassino do próprio filho para recuperar seus despojos, Páris, o mancebo que rapta a volúvel Helena do marido e com esse ato impensado interrompe uma frágil trégua com seus inimigos jurados e leva a desgraça para sua cidade por paixão e luxúria. Heitor que reafirma sua condição de herói humano, o “bem amado” que se sacrifica pela sua cidade e enfrenta a morte certa com coragem e determinação. Aquiles, o guerreiro semidivino, herói fundador, super homem invulnerável equiparado a Heracles e  Teseu que disputa o saque com os Atridas e tomado pela cólera em função da morte de seu mancebo Pátroclo, se atira ao combate e ultraja o corpo do inimigo morto,  que lutou com valor heróico até o fim, mesmo sabendo não ter nenhuma chance de vitória contra o semideus. Esses são os elementos dramáticos e personagens que seriam imortalizados e que falam da nossa humanidade desde os primórdios dos tempos. Eles são os eternos heróis da tribo e portanto o são também da cidade estado e se transformaram em arquétipos representando o que existe de pior e melhor em nossa particular humanidade.

Aristóteles foi o primeiro estudioso  conhecido da questão. É  sua a classificação da poética: “A epopeia, o poema  trágico, bem como a comédia, o ditirambo (hino coral em louvor a Dioniso), ... a arte do flauteiro e a do citareiro, todas vem a ser, de modo geral, imitações.” Como aqueles que imitam pessoas em ação, estas imitam pessoas necessariamente boas ou más. Em seu estudo realça a noção de enlevamento, de arrebatamento, de catarse, de entusiasmo como sensações necessárias ao bom cumprimento da tarefa da obra.

É nas antigas interpretações sagradas que se inspira a arte popular para criar sua própria versão nas tragédias e comédias encenadas em principio nas praças e mercados antes de ocupar os anfiteatros e se institucionalizarem nas coisas do poder.  Os dórios reivindicam para si tanto a tragédia quanto a comédia. Os do Peloponeso também acreditavam que a origem tenha sido naquela região pela semelhança dos nomes  que  se dá a comédia e a tragédia, na sua linguagem, diferente de outros povos gregos. Dão eles o nome de “comas” aos arrabaldes. Os comediantes vagueavam pelos arrabaldes, tocados com desprezo para fora da cidade o que lhes granjeou esse nome. Segundo o autor a palavra drama significa ação, de “dran”.  Enquanto no Oriente o sagrado e o profano se confundem, na Grécia e em Roma já existe a tendência de separação das manifestações culturais, verdadeiro processo lobotomizado,  que seria definitivo nos últimos dois mil anos no Ocidente. Entretanto os temas seguem uma tendência de atrelamento aos aspectos religiosos e políticos vigentes na polis, pois a pena para os inimigos da fé oficial e política era cruel e vil.

A tragédia Ática atinge seu apogeu criativo como resultado da constatação humana sobre o efêmero da existência e sobre a fragilidade do ser perante o capricho dos deuses e as forças titânicas da natureza, a vulnerabilidade da vida como um fio tênue tecido pelas parcas que comandam o destino até mesmo dos deuses do Olimpo. Suas tramas contam as vidas de monarcas poderosos sujeitos às paixões insufladas pelas divindades e suas indignidades que foram transformadas em narrativas pelos grandes dramaturgos gregos com maestria.

São nas antigas formas de barbárie trazidas pelos dórios, povos indo arianos, os seus cultos milenares de sangue e questões sucessórias de seus reis que os gregos irão se inspirar para dar vida aos seus personagens, sombrias existências de seres predestinados que aguardam os movimentos inexoráveis das parcas e aceitam impassíveis seus destinos.

Nietzsche pretendeu em sua obra: “O Nascimento da Tragédia”, ao analisar as obras Clássicas, estabelecer uma dualidade, um “coincidentia oppositorum”, um antagonismo de opostos na essência de seus temas, do ponto de vista estético, e busca idealizar dentro dessa visão um passado cultural elevado, de superioridade moral do panteão artístico europeu baseado na cultura greco-latina. Mas sua concepção grandiosa do passado clássico estendeu “um manto estético enganador sobre o problema”, segundo Jung. Assim por exemplo quando comenta sobre as orgias dionisíacas Nietzsche observa: “Em quase toda a parte, o motivo central dessas festas era constituído pelo desbordamento sexual que, em seu arrasador caudal, remodelava a estrutura familiar e seus veneráveis preceitos. Aí se deixava à solta, precisamente, as mais selváticas feras da natureza, até se atingir essa horrível mistura de volúpia e crueldade”.

Nietzsche considerava entre Apolo e Dioniso a oposição entre o espírito e a carne.  Ele estabelece como valor oposto o Apolo Délfico, figura civilizadora, viril, força de ordenamento, o deus da forma, da forma plástica em arte, da forma racional no pensamento,  em oposição ao instinto da primitiva deidade euro asiática associada a embriaguez do vinho transformado em soma que tanta influência perturbadora impregnava a cultura grega e se difundia por todo o mundo conhecido.
   
Jung, entretanto expõe essa visão idealizada de Nietzsche da arte grega, como motivo subliminar de entesouramento do passado Clássico, natural do eurocentrismo da época, e estabelece um padrão com a própria realidade psicológica do ser humano na atualidade, onde as religiões de bondade proliferam, mas a crueldade religiosa subsiste, colocando o individuo no seu devido lugar como agente cultural proliferador e afirma: “o grego...sentia-se mais a vontade nesse estado (dionisíaco) em virtude da própria essência bárbara, privado da individualidade, integrado em seu elemento coletivo (com a concomitante renuncia de seus fins individuais), enfim, unido com  ‘o gênio da espécie’, inclusive da natureza”.  (“Tipos Psicológicos” – Carl Jung -  Capitulo III – “O Apolíneo e o Dionisíaco” ) Assim o cidadão da poli se enchia de entusiasmo, que no sentido etimológico significa “estar cheio de deus” e se envolvia na catarse do festival canalizando sua energia para o livre culto da deidade.

É, portanto na catarse de sua crença onde se abriga o valor estético da tragédia. O ditirambo evoluiu da tradição totêmica com identificação plena em antepassados míticos ou com o símbolo animal da tribo e possui clara referencia aos antigos rituais omofágicos como interpretação simbólica do devoramento da carne através do enredo intrincado da tragédia. O culto ao deus tinha clara identificação entre os trácios e dórios, como tema recorrente, com poderosos influxos religiosamente estimulantes da antropofagia ritual.
E comenta Aristóteles em sua poética:

“Parece, de modo geral, darem origem à poesia duas causas, ambas naturais. Imitar é natural ao homem desde a infância – e nisso difere dos outros animais, em ser o mais capaz de imitar e de adquirir os primeiros conhecimentos por meio da imitação – e todos tem prazer em imitar.

Prova disso é o que acontece na realidade: das coisas cuja visão é penosa temos o prazer de contemplar a imagem quanto mais perfeita; por exemplo, as formas dos bichos mais desprezíveis e dos cadáveres.”  ( Poética Clássica – Aristóteles – Ed. Cultrix – 12 ed.)

O fato de, a tragédia ter surgido dessa ritualidade, principal ponto de relevo em relação a sua origem iniciática pretendida pela sua cultura particular que os antigos desenvolveram  é questão que se mantém impermeável, por inconsciente, e pouco entendida ao estetismo do estudioso moderno. Os romanos tinham uma percepção cultural mais próxima desses valores estéticos e incrementaram nos espetáculos de gladiadores os elementos de vida e morte comuns a essa temática, oriunda dos seus rituais fúnebres, transformada em demonstração pública de catarse numa poética marcial própria. Mas do ponto de vista subjetivo, psíquico e orgânico, ainda subsiste pelo tanto que presenciamos, em escala cada vez maior, e convivemos com a brutalização das imagens nos processos audiovisuais contemporâneos, como mera imitação da realidade.

Em Satiricon, obra  criada por volta de 60d.C. por Petronius, podemos visualizar a popularização da temática clássica levada ao extremo como obra que agrega os elementos da comédia e da tragédia em um ritmo alucinante ainda sem o vício do preconceito da civilização judaico cristã. Expoente da literatura narrativa seu clímax sem dúvida alguma é o banquete onde Trimalchio o escravo liberto que adquiriu grande fortuna serve as mais caras especiarias e pratos para os convivas, uma descrição dos costumes de então. Sua contemporaneidade narrativa garantiu a imortalidade dessa farsa que descreve sob a desculpa do relato dos hábitos de então personagens que são humanos e não heróis semidivinos. Sobre a arte poética Petronius utiliza a voz dos seus personagens para externar a crítica de uma sociedade que se imaginava erudita, pois detinha o poder do império:

“Falsas vocações, quantos jovens se sentiriam inclinados para a poesia – disse Eumolpo. Mal conseguindo ajustar um verso nos seus pés e pôr num período uma ideia mais ou menos delicada, já acreditam ter atingido o sumo do Helicão. É assim que, fugindo da agitação do fórum, veem-se advogados refugiar-se no calmo asilo da poesia, como num porto mais seguro, supondo que uma epopeia é mais fácil de construir que um discurso salpicado de ditos cintilantes. Os altos espíritos, ao contrário, não apreciam esses vãos ornamentos, e a mente nada pode conceber ou produzir de valor se o vasto caudal da literatura não a tiver inundado com suas águas fecundantes. É preciso fugir daquilo que eu chamarei de trivialidade de expressão, e escolher as suas palavras fora das da plebe, observar, enfim, a asserção de Horácio”:

‘Odeio o vulgo profano e dele me mantenho afastado’ (Odes I, 1.)

“É preciso, além disso, evitar os pensamentos que parecem destacar-se do corpo da oração, e fundi-los na própria trama do verso onde brilharão com todo o seu esplendor. Testemunhos disto oferecem Homero e os líricos, o romano Virgílio e as descobertas felizes de um Horácio. Quanto aos outros, eles não viram sequer a estrada que conduz a poesia, ou, se a viram, recearam nela entrar”... ”Pois não se trata somente de encerrar no verso a simples descrição dos acontecimentos...mas é mister que através das mil peripécias das intervenções dos deuses e do tormento fabuloso das belezas do estilo, a imaginação possa expandir-se livremente, de modo a reconhecer-se na obra antes o delírio profético de um espirito inspirado do que a árida verdade de uma narrativa presa religiosamente aos testemunhos”...

As concepções elitistas do personagem de Petrônio que parafraseia Horácio é um sentimento que será sempre recorrente entre os doutos. Os eruditos consideram  deter o conhecimento, fixar seu enquadramento em normas pré-estabelecidas  e condicionar os valores estéticos através da forma no que denominam cultura civilizada em oposição à estética bárbara. Tendência que mantem adeptos ferrenhos até nossos dias albergados em academias literárias e confrarias de classe.

Mas com teimosia revigorada o vulgo profano produz sua poética própria, inscrita nas paredes dos templos e lugares públicos, continua criando suas músicas e poesias sem a preocupação de agradar as elites, sempre a proferir heresias poéticas livremente. Na maioria em obras anônimas que muitas atravessaram os tempos através da transmissão oral e em libelos furtivos cantados em prosa e verso. Mas são justamente as obras populares de ontem que livres de amarras literárias formais definem as grandes transformações da poética através dos tempos.