domingo, 2 de fevereiro de 2014

RUMI - "SOU O ESCRAVO QUE LIBERTOU O AMO"


Jallaludin Rumi - (1207-1273)

"SOU O ESCRAVO QUE LIBERTOU O AMO"

Sou o escravo que libertou o amo

O Discípulo que instruiu o mestre

Sou a alma que ontem nasceu no mundo

e no mesmo instante criou esse mundo vetusto.

Sou a cera orgulhosa que fez o ferro virar aço.

Passei unguento nos olhos dos cegos

e ensinei homens de pouco entendimento.

Sou a nuvem negra que trouxe alegria

da noite de dor ao dia de festa.

Sou a terra milagrosa

que pelo fogo do amo se elevou

e tocou a mente do Céu.

Noite passada o rei não dormiu,

contente de saber que eu, o escravo, dele me lembrei

Não me culpes se sou escandaloso e lavrei justiça,

foste tu que me embriagaste.

Silencio, que o espelho se desgasta;

quando soprei sobre ele,

protestou contra mim.

Alguém bateu a porta da Bem-Amada,

e uma Voz lá dentro perguntou:

"Quem está aí ?"

E ele respondeu - Sou eu.

A Voz então disse:

"Esta casa não conterá nós dois"

E a porta continuou fechada

Então o Amante foi para o deserto e na solidão jejuou e orou.

Retornou depois de um ano e bateu novamente à porta.

E de novo a voz perguntou:

"Quem é?"

E o Amante respondeu:

"És tu mesma!"

E a porta lhe foi aberta. 





Fonte: A Mística do Amor - Jallaludin Rumi - Ed. Pradense - 2012
Tradução: André Luis Soares Vargas

terça-feira, 9 de abril de 2013

HO CHI MINH




"Se o tigre parar, o elefante o transpassará com suas possantes presas. Mas o tigre jamais parará e o elefante morrerá de exaustão e hemorragia" (Ho Chi Mihn - 1946)

Há setenta anos atrás, um certo marinheiro vietnamita de nome Ba, recuperando-se de uma tuberculose (que  o acompanharia durante décadas) esteve durante seis meses no Rio de Janeiro. Morou em uma pensão em Santa Tereza. Durante o V Congresso do Cominten, em Moscou Nguyen Ai Quoc dividiu seu quarto com um comunista brasileiro Rodolfo Coutinho. E contava ao dirigente do PCB sobre sua estada no Brasil: confessava-se impressionado com a pobreza, principalmente na região dos mangues no Rio. E segundo se conta teria falado em um português-espanhol atravessado das suas boas lembranças com "las putanas del mangue". Esse lado boêmio do grande líder nunca constou de suas biografias oficiais. 

Foi como Nguyen Ai Quoc que Ho construiu sua reputação de grande agente da 3° Internacional. Como jornalista Ai Quoc se tornou conhecido dentro da esquerda. Seus artigos eram demolidores, com fina ironia e humor considerado brilhante. Esse homem segundo seus perseguidores iria se tornar mais tarde Ho Chi Mihn, o libertador do Vietnã que com sua humildade destruiu dois exércitos imperiais.

"A raiz faz a árvore sólida
O palácio de todas as vitórias
se constrói sobre um povo inteiro"

No palácio de Hanói, então construído sobre uma vitória fortuita do Viet Minh, Ho não resistiria muito tempo. Quando a 20 de dezembro de 1946, os franceses conquistam Hanoi e invadem o palácio presidencial, Ho Chi Mihn, doente e inconsolável, havia sido evacuado para a selva, com seu Estado Maior. De lá, em seu habitat natural, o tigre vietnamita comandaria a resistência.

Ainda no período anterior permanecerá algum tempo preso na China, e viu o período de reclusão como um estágio para alcançar seu objetivo:

"Pessoas que saem da prisão podem construir seu país
O infortúnio é um teste na fidelidade da pessoa
Aqueles que protestam contra a injustiça são pessoas de verdadeiro mérito
Quando as portas da prisão se abrem o verdadeiro dragão voará"

No Vietnã a poesia sempre foi uma maneira simples e fácil de comunicar-se com o povo. Bem mais fácil entender uma poesia do que palavras de ordem incompreensíveis para o sensível povo vietnamita. Esse é seu gesto, um canto particular, marca registrada daqueles que desde o começo dos tempos iluminam, em "Ho aquele que ilumina", suas poesias são estruturadas assim:

"Cantar a natureza era o prazer dos antigos
Flores e neve, luz e vento, montanhas e rios,
É preciso armar de aço os versos do nosso tempo
E o poeta também deve saber combater"

Suas poesias escritas com a leveza do clássico estilo chinês Tang, a partir de uma visão crítica Ocidental, rasa de percepção parecem pobres e ingênuas:

"Se levo fortemente atados os meus braços
ouço os pássaros, sinto o perfume das flores
Quem me pode impedir essa felicidade
Que me faz menos só e a marcha menos triste"

No seus poemas utiliza a linguagem dos camponeses e frequentemente usa o arroz como metáfora de um sistema de produção colonial opressor. Frágil como apenas mais um grão abatido sob o pilão, na sua luta pela liberdade lembra a bandeira do Viet Minh:

"Uma noite sem dormir, Duas noites, Três noites,
Viro na cama, inquieto, e o sono não vem
Quarta noite, Quinta noite. Meus olhos não se fecharam
Senão quando comecei a sonhar com a estrela de cinco pontas"

Em meio ao desterro, preso na China, mostrava que ainda estava vivo, lúcido e arrasador, em seu mordaz humor. Como nessa poesia anotada no diário: Sobre a delegação norte americana que visitava a China:

"Somos ambos amigos da China
Vamos ambos para Chunking
Mas você segue como convidado de honra
Enquanto eu sou prisioneiro, atirado sob uma escada
Frieza para com um, cordialidade para com outro:
O mundo sempre foi assim desde tempos imemoriais
as águas correm para o mar"

E na mais fina ironia de um prisioneiro:

"O Estado me alimenta com arroz; habito seus palácios
Seus guardas se revezam para me fazer companhia,
Suas montanhas e seus rios, eu os contemplo à vontade.
Com tais privilégios, um homem se sente realmente um homem!"

Seu período na prisão foi na verdade triste, solitário e penoso. O mais belo poema de seu diário escrito quatro meses após ter sido preso expressa sua índole e demonstra que em termo de prisões os chineses nada inovaram na crueza do tratamento dos inimigos como tantos outros senhores da época:

"Um dia encarcerado
mil anos lá fora
Não é vã palavra
Este provérbio antigo
Quatro meses na cela
destruíram meu corpo
mais do que dez meses de vida
Quatro meses de fome
Quatro meses de insônia
sem mudar de roupa
sem poder me lavar
Abandonou´me um dente
cabelos branquearam-se
negro, magro, faminto
vestido de sarna e de feridas
Mas paciente sou,
duro, rijo
sem recuar um palmo
Materialmente miserável,
o moral, firme".

Foram treze meses de fome, de insônia, de sarnas e de moral firme nas mãos do Kuomintang. Em 16 de setembro de 1943, além de livre Ho estava de novo na liderança de um grupo nacionalista patrocinado pelos chineses. 

Ao estalar a guerra contra o colonialismo francês adverte: "Vocês me matarão dez homens, enquanto eu lhes matarei um. Mas mesmo com essa conta, vocês não poderão aguentar e eu vencerei...,"

Na selva com escassos recursos militares e poucos alimentos, a situação era grave para Ho e seus homens: "Os revolucionários vietnamitas receberam a influência revigorante da Revolução de Outubro e do marxismo-leninismo, como um viajante com fome e sede que, após uma longa jornada, recebe arroz e água".

Até que no final de 1949 Mao Tsé Tung assume o poder na China estabelecendo uma República Popular e então ocorre a mudança na guerra vietnamita. Armas e alimentos chegam para o Viet Minh. A intervenção norte americana em apoio ao aliado francês iniciou a temporada de chuva de Napalm. 

    
Bibliografia: Ho Chi Minh - Rafael Roubicek - Ed. Brasiliense - 1984
   

  

sexta-feira, 22 de março de 2013

PABLO NERUDA





OS INIMIGOS

Aqui eles trouxeram os fuzis repletos
de pólvora, eles comandaram o acerbo extermínio,
eles aqui encontraram um povo que cantava,
um povo por dever e por amor reunido,
e a delgada menina caiu com a sua bandeira,
e o jovem sorridente girou a seu lado ferido,
e o estupor do povo viu os mortos tombarem
com fúria e dor.

Então, no lugar
onde tombaram os assassinados,
baixaram as bandeiras para se empaparem do sangue
para se erguerem de novo diante dos assassinos.
Por estes mortos, nossos mortos,
peço castigo.

Para os que salpicaram a pátria de sangue,
peço castigo.
Para o verdugo que ordenou esta morte,
peço castigo.

Para o traidor que ascendeu sobre o crime,
peço castigo.

Para o que deu a ordem de agonia,
peço castigo.

Para os que defenderam este crime,
peço castigo.

Não quero que me dêem a mão
empapada de nosso sangue.
Peço castigo.

Não vos quero como embaixadores,
tampouco em casa tranquilos,
quero ver-vos aqui julgados,
nesta praça, neste lugar.
Quero castigo.



Não me sinto mudar
Não me sinto mudar. 

Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo
mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.

- Pablo Neruda, in "Cadernos de Temuco", [tradução de Albano Martins].





Eternidad
Escribo para una tierra recién secada, recién
fresca de flores, de polen, de argamasa,
escribo para unos cráteres cuyas cúpulas de tiza
repiten su redondo vacío junto a la nieve pura,
dictamino de pronto para lo que apenas
lleva el vapor ferruginoso recién salido del abismo,
hablo para las praderas que no conocen apellido
sino la pequeña campanilla del liquen o el estambre quemado
o la áspera espesura donde la yegua arde.

De dónde vengo, sino de estas primerizas, azules
materias que se enredan o se encrespan o se destituyen
o se esparcen a gritos o se derraman sonámbulas,
o se trepan y forman el baluarte del árbol,
o se sumen y amarran la célula del cobre
o saltan a la rama de los ríos, o sucumben
en la raza enterrada del carbón o relucen
en las tinieblas verdes de la uva?

En las noches duermo como los ríos, recorriendo
algo incesantemente, rompiendo, adelantando
la noche natatoria, levantando las horas
hacia la luz, palpando las secretas
imágenes que la cal ha desterrado, subiendo por el bronce
hasta las cataratas recién disciplinadas, y toco
en un camino de ríos lo que no distribuye
sino la rosa nunca nacida, el hemisferio ahogado.
La tierra es una catedral de párpados pálidos,
eternamente unidos y agregados en un
vendaval de segmentos, en una sal de bóvedas,
en un color final de otoño perdonado.

No habéis, no habéis rosado jamás en el camino
lo que la estalactita desnuda determina,
la fiesta entre las lámparas glaciales,
el alto frío de las hojas negras,
no habéis entrado conmigo en las fibras
que la tierra ha escondido,
no habéis vuelto a subir después de muertos
grano a grano las gradas de la arena
hasta que las coronas del rocío
de nuevo cubran una rosa abierta,
no podéis existir sin ir muriendo
con el vestuario usado de la dicha.
Pero yo soy el nimbo metálico, la argolla
encadenada a espacios, a nubes, a terrenos
que roca despertadas y enmudecidas aguas,
y vuelve a desafiar la intemperie infinita.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Safo





A Átis - Safo

 Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me, desfeita em lágrimas:
"Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo". "Seja feliz", eu disse,
"E lembre-se de quanto a quero.
Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.
Quantas grinaldas, no seu colo,
— Rosas, violetas, açafrão —
Trançamos juntas! Multiflores
Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis; os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros
Da sua pele em minha pele!
[...]
Cama macia, o amor nascia
De sua beleza, e eu matava
A sua sede" [...}
Cai a lua, caem as plêiades e
É meia-noite, o tempo passa e
Eu só, aqui deitada, desejante.
— Adolescência, adolescência,
Você se vai, aonde vai?
— Não volto mais para você,
Para você volto mais não.


Safo (613 a.C - 570 a.C) Poeta grega, nasceu ou em Eressos ou em Mitilene na ilha de Lesbos, no mar Egeu. A tentativa de realçar suas relações como proibidas com outras mulheres se origina no medievo quando seus versos foram tratados como pecaminosos pelos católicos. Ao que consta teve relações com homens e com mulheres, mas as suas preferências românticas iam para estas últimas. As referências morais da Idade Média não se ajustam a liberdade de seus poemas escritos no período Clássico e que permanecem com absoluta atualidade até hoje. Da sua poesia sobreviveram 650 versos, e só um poema completo. Safo liderava um grupo de mulheres que adoravam Afrodite, a deusa do amor.


A uma mulher amada

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro... eu tremo.



Para Anactória

A mais bela coisa deste mundo
para alguns são soldados a marchar,
para outros uma frota; para mim
é a minha bem-querida.
Fácil é dá-lo a compreender a todos:
Helena, a sem igual em formosura,
achou que o destruidor da honra de Tróia
era o melhor dos homens,
e assim não se deteve a cogitar
em sua filha nem nos pais queridos:
o Amor a seduziu e longe a fez
ceder o coração.
Dobrar mulher não custa, se ela pensa
por alto no que é próximo e querido.
Oh não me esqueças, Anactória, nem
aquela que partiu:
prefiro o doce ruído de seus passos
e o brilho de seu rosto a ver os carros
e os soldados da Lídia combatendo
cobertos de armadura.



O Amor

O Amor agita meu espírito
como se fosse um vendaval
a desabar sobre os carvalhos.

               A amada

Ventura, que iguala aos deuses,
Em meu conceito, desfruta
Quem, junto de ti sentada,
As doces falas te escuta,
Goza teu mago sorrir.
Quando imagino em tal gosto
ë minha alma um labirinto;
Expira-me a voz nos lábios;
Nas veias um fogo sinto;
Sinto os ouvidos zunir.
Gelado suor me inunda;
O corpo se me arrepia;
Foge-me as cores do rosto,
Como ao vir da quadra fria
Entra a folha a desmaiar.
Respiro a custo, e já cuido
Que se esvai a doce vida!
Arrisquemo-nos a tudo...
Contra uma angústia insofrida
tudo se deve tentar.



Um jardim

Vem de Creta até este templo
sagrado, onde há um gracioso bosque de
macieiras e altares onde arde
o incenso.
Aqui, a água fresca canta através dos ramos
das macieiras, a sombra das roseiras
cobre todo o recinto e das trémulas folhas
escorre um sono pesado.Aqui, o prado onde pastam os cavalos
já se cobriu de flores primaveris e as brisas
sopram docemente [...]
[...]
Vem, Cípris, coroada de grinaldas,
e, graciosamente, nas douradas taças
o néctar ligado aos festins
derrama



Adeus

Sinceramente, a minha vontade é morrer.
Por entre abundantes lágrimas,
afastou-se de mim e disse-me:
"Que horrível sofrimento,
Safo! É verdadeiramente contrariada que te deixo."
Eu respondi-lhe:
"Vai, não chores, e lembra-te de mim,
bem sabes como te amei.
Se não, quero ao menos
que lembres tudo o que
de belo e doce nós vivemos.
Tantas coroas compostas juntamente
de violetas, de rosas e açafrão
com que, a meu lado, te enfeitavas
e tantas grinaldas tecidas
de belas flores, entrelaçadas
à volta do teu colo tenro
e tantas ricas essências e o
régio perfume com que
tu impregnavas a minha cabeleira
e, deitada, num leito
macio, junto a mim,
o desejo aplacavas...e nem casamento nem
disputa nem sequer correntes de água
podiam destruir os laços pelos quais estamos unidas.



Augusto dos Anjos



Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e relutância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-se à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e a vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!


Anjos, Augusto dos. Eu: poesias. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998. pág. 21.
Augusto dos Anjos!



Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te a lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera

Toma um fósforo, acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga.
Escarra nessa boca de que beija!



Jorge Luís Borges




Borges, como que evocando musas, reencontra a métrica do Persa e nos conta a forma e a essência dos rubaiyat de Omar Khayyam.  

Eis o poema:

Rubaiyat

Volte em minha voz a métrica do Persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.

Volte a afirmar que é a cinza, o fogo,
A carne, o pó, o rio, a fugitiva
Imagem de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos vai de logo.

Volte a afirmar o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa, e que à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é momento.

Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta unicamente no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.

Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como torna no temporão
Azul a teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de te buscar em vão.

 Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.

Que a lua do Persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos.


terça-feira, 19 de março de 2013

Bertold Brecht




"Não se regozigem com a derrota dele, homens
Mesmo que o mundo tenha se erguido para deter o bastardo
a cadela que o pariu está no cio novamente"

Bertold Brecht






Ah! Desgraçados!
Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?
Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?
A violência faz a ronda e escolhe a vítima,
e vocês dizem: "a mim ela está poupando, vamos fingir que não estamos olhando".
Mas que cidade?
Que espécie de gente é essa?
Quando campeia em uma cidade a injustiça,
é necessário que alguem se levante.
Não havendo quem se levante,
é preferível que em um grande incêndio,
toda cidade desapareça,
antes que a noite desça.
Bertolt Brecht

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tanta vezes?
Em que casas Da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que
a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma esta cheia de arcos do triunfo
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Cesares?
A decantada Bizancio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada
Naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu alem dele?

Cada pagina uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.

(Bertold Brecht)

Jenny dos Piratas - Na peça "A Ópera dos Três Vinténs" é cantada por Polly , a filha de Peachum, que vai se casar com o gangster Macheath, o Mac Navalha. Polly está num beco sem saída e só pode ansiar por um tipo de salvação como aquele que aparece na canção:

Tradução: Pablo Capistrano

Meus senhores, hoje me veem limpando copos.
E fazendo camas para os outros.
Agradecendo prontamente os trocados que recebo.
E os senhores veem meus trapos nesse hotel vagabundo.
E os senhores não sabem com quem estão falando.
Mas, qualquer noite dessas, haverá gritos no porto.
E se perguntará: que gritaria é essa?
E os senhores me verão sorrindo junto aos meus copos.
E perguntarão: do que ela está rindo?
E um navio de oito velas.
Com cinquenta canhões.
Estará ancorado no cais.
E dirão: vá! Limpe teus copos, fofinha!
E me lançarão uns centavos.
E as camas serão arrumadas, e os centavos embolsados.
(Camas que não serão usadas nessa noite).
E os senhores ainda não tem ideia de quem eu sou.
Mas, qualquer noite dessas, haverá estrondos no porto.
E se perguntará: que barulho é esse? / E me verão atrás da janela, observando.
E dirão: por que esse sorriso malicioso?
E o navio de oito velas.
Com cinquenta canhões.
Bombardeará a cidade.
Meus senhores, provavelmente suas risadas cessarão.
Quando os muros começarem a cair.
E quando a cidade for posta rente ao chão.
Restando apenas esse hotel vagabundo,
poupado de qualquer arranhão.
E se perguntará: quem, de tão especial, mora aqui?
E essa noite, se ouvirá gritaria ao redor do hotel.
E se perguntará: por que esse hotel foi poupado?
E me verão sair, de manhã, pela porta.
E perguntarão: ela morava ai?
E o navio de oito velas.
Com cinquenta canhões.
Tremulará suas bandeiras nos mastros.
E desembarcarão as centenas.
E pisarão nas sombras.
E arrastarão cada pessoa que encontrarem,
atrás de cada porta que vasculharem.
E os acorrentarão e os trarão até mim.
E perguntarão: a quem devemos matar?
E nesse meio dia, haverá calmaria no porto.
Enquanto se pergunta: quem tem que morrer?
E então me ouvirão dizer:
Todos!
E quando as cabeças começarem a rolar eu direi:
Eita!
E o navio de oito velas.
Com cinquenta canhões.
Desaparecerá comigo no horizonte.



O personagem Macheath, na peça, está disposto a subir de vida, passando de um marginal que controla o mercado negro a banqueiro. E junto aos seus capangas ele questiona: "O que é um torpedo, em comparação com uma ação ao portador ? O que é assaltar um banco, em comparação com fundar um banco ? Sua argumentação é retomada na "Canção de Fundação do Banco Nacional de Depósitos":

Para fundar um banco

precisa-se de capital inicial
Se a grana porém faltar
onde obtê-la sem roubar ?


Brecht sempre expressou uma visão crítica da sociedade em que vivia e uma recusa à  submissão em um país que se preparava para ser dominado pelo totalitarismo nazista. Em sua peça "Cabeças Redondas e Cabeças Pontudas", uma sátira contra o nazismo, uma personagem entoa a canção na qual diz:

Já tivemos muitos amos:
amos-tigres, amos-hienas,
nobres e porcos - dezenas! -
e a todos alimentamos.
Seus coturnos? Quem viu um
viu todos...Não comparamos,
Não queremos novos amos:
Não queremos amo algum! 

A atualidade de sua crítica do mundo, mergulhado hoje em profunda crise econômica do sistema financeiro Europeu  torna sua obra imortalmente universal. A coerência de sua temática social que sofreu críticas recentes por àqueles que viam no socialismo uma ideologia moribunda no leste europeu, ainda faz tremer as bases de uma visão eurocêntrica capitalista, que através da exploração da mão de obra em suas zonas de influência e alhures, com o fim do colonialismo, se veem como potências de segunda ordem em franca decadência em busca de novas aventuras militares. Os antigos satélites da ex-URSS estão hoje mergulhados no ostracismo de uma falsa liberdade onde não existe nem pão, nem trabalho. Só agora suas populações iludidas parecem despertar para uma crise sem precedentes onde só os poderosos capitalistas sobrevivem.

Aos que vierem depois de nós
Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

 (Tradução de Manuel Bandeira)

- O poema acima foi extraído do caderno "Mais!", jornal Folha de São Paulo - São Paulo (SP), edição de 07/07/2002, tendo sido traduzido pelo grande poeta brasileiro Manuel Bandeira./Fonte: Releituras





Louvor ao estudo

Estuda o elementar: para aqueles
cuja a hora chegou não é nunca demasiado tarde.
Estuda o abc. Não basta, mas estuda. Não te canses.
Começa. Tens de saber tudo.
Estás chamado a ser um dirigente.

Freqüente a escola, desamparado!
Persegue o saber, morto de frio!
Empunha o livro, faminto! É uma arma!
Estás chamado a ser um dirigente.

Não temas perguntar, companheiro!
Não te deixes convencer!
Compreende tudo por ti mesmo.

O que não sabes por ti,
não o sabes.
Confere a conta. Tens de pagá-la.
Aponta com teu dedo a cada coisa
e pergunta: "Que é isto? e como é?"
Estás chamado a ser um dirigente.


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Breve Biografia
Bertolt Brecht nasceu em Augsburg, Alemanha, em 1898. Em 1917 inicia o curso de medicina em Munique, mas logo é convocado pelo exército, indo trabalhar como enfermeiro em um hospital militar. Aquele que iria se tornar uma das mais importantes figuras do teatro do século XX, começa a escrever seus primeiros poemas e cedo se rebela contra os "falsos padrões" da arte e da vida burguesa, corroídas pela Primeira Guerra. Tal atitude se reflete já na sua primeira peça, o drama expressionista "Baal", de 1918. Colabora com os diretores Max Reinhardt e Erwin Piscator. Recebe, no fim dos anos 20, instruções marxistas do filósofo Karl Korsch. Em 1928, faz com Kurt Weill a "Ópera dos Três Vinténs". Com a ascensão de Hitler, deixa o país em 1933, e exila-se em países como a Dinamarca e Estados Unidos da América, onde sobrevive à custa de trabalhos para Hollywood. Faz da crítica ao nazismo e à guerra tema de obras como "Mãe coragem e seus filhos" (1939). Vítima da patrulha macartista, parte em 1947 para a Suíça — onde redige o "Pequeno Organon", suma de sua teoria teatral. Volta à Alemanha em 1948, onde funda, no ano seguinte, a companhia Berliner Ensemble. Morre em Berlim, em 1956.




1) Bibliografia - A poesia de Brecht e a História - Autor: Leandro Konder - Jorge Zahar Ed. - 1996